Em fevereiro de mil
novecentos e trinta e dois, vinte e três agremiações disputaram a competição, que
teve a Mangueira como vencedora. Porém,
naquela época, não havia um enredo para direcionar o desfile. As escolas
cantavam desde sambas já consagrados às letras improvisadas, que não
necessariamente combinavam com as fantasias e alegorias.
No ano seguinte, em mil novecentos e trinta e três, organizadores
da festa buscaram o apoio da prefeitura. O então prefeito Pedro Ernesto incentiva a ideia
no intuito de aproximar o povo de seu governo, mas exige a criação de regras e
de uma competição entre as escolas já
que a prefeitura passa a oferecer um valor em dinheiro para os vencedores. A partir dai o desfile de escolas de samba entra para o
calendário oficial. A professora de
Cultura Brasileira, da Puc-Rio, Luisa Chaves,
explica como foi esse momento.
“Quando entra no calendário oficial, em trinta e três, você
começa a ter a obrigatoriedade de ter um samba enredo e essa obrigatoriedade de
ter um samba enredo, vai organizar o
samba, inclusive como um gênero musical”.
Como os desfiles foram absorvidos pela ordem do trabalho, os
sambistas passaram a ser profissionais da música. Nesse momento, acontece a separação entre o samba
em si e o samba enredo. Este se torna um
gênero épico, moldado para embalar o espetáculo visual e coreográfico dos
desfiles das escolas.
Um grande marco da história do samba enredo foi o desfile da
Portela, em mil novecentos e trinta e nove, que apresentou o enredo, fantasias
e samba com a mesma narrativa. Com
“teste ao samba”, de Paulo da Portela, a escola deu início ao que seria o novo
padrão de desfile. A obrigatoriedade do samba enredo também trouxe outra
característica importante: a de contar, em forma de música, a história
nacional. Os enredos eram os livros
didáticos de toda uma população que não tinha acesso ao estudo. No início, eles passavam a visão de uma história oficial,
chamada por muitos pesquisadores de
“história chapa branca”. As escolas
apresentavam enredos sobre a princesa Isabel, Duque de Caxias, e sobre grandes nomes da ciência e da
literatura brasileira. Apesar de maioria nas escolas de samba, a história do povo
negro não ganhava destaque. Em mil
novecentos e sessenta, isso mudou com o enredo “Quilombo dos Palmares” ou
“Zambi dos Palmares”, de Anescarzinho e Noel rosa. Apresentado pelo Salgueiro, a temática
afro-brasileira aparecia como tema principal nos desfiles pela primeira vez.
Em mil novecentos e sessenta e cinco, no quarto centenário
do Rio, a Império Serrano desfilou com o que seria o primeiro samba enredo
assinado por uma mulher em uma grande escola. O samba “Cinco bailes da história
do Rio”, de Dona Yvone Lara e Sillas de Oliveira, não venceu a competição
naquele ano, mas marcou a história do
samba e abriu espaço para outras mulheres compositoras.
Em mil novecentos e sessenta e seis, a Mangueira desfilou
com o samba “Exaltação à Villa Lobos”, considerado um dos mais bonitos da história
do carnaval. O tema, que homenageava Heitor
Villa-Lobos, fazia o encontro entre a música popular, o samba enredo e os carnavais das escolas de
samba.
Três anos depois, em mil novecentos e sessenta e nove, no
carnaval posterior ao ato institucional número cinco, o AI-5, a Império Serrano apresentou o samba enredo “Heróis
da liberdade”, de autoria de Sillas de Oliveira.
O samba tinha um forte sentido político
e precisou mudar uma parte da letra de sua música, com a substituição da palavra
“revolução” para “evolução”.
Outro momento importante para a história do samba enredo no
Rio aconteceu no desfile da Unidos de Vila Isabel, em mil novecentos e setenta
e dois, com a música “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, de Martinho da Vila.
O samba narrava à guerra de expulsão dos
holandeses no nordeste brasileiro e exaltava a cultura pernambucana. A letra apresentou um país que aprendia sobre
a liberdade em um contexto marcado pelos anos de chumbo do regime militar.
Em mil novecentos e oitenta e oito, no centenário da abolição
da escravatura, a Mangueira desfilou com o samba enredo “Cem anos de liberdade,
realidade ou ilusão?”, de Hélio Turco, Jurandir e Alvim. O samba questionava a abolição e a existência
de uma liberdade para a população negra.
Dessa forma, a escola mostrou a função do samba enredo não só como uma
obra de arte, mas como um documento social.
Criação, escolha e disputa
Para além da arte e da história por trás de um samba enredo,
existe um universo mais burocrático na escolha da música. Primeiro, o carnavalesco de cada escola escreve
uma sinopse para o desfile. A partir
dai, é feita uma reunião com todos os compositores da escola, onde o
carnavalesco exibe a ideia e, ali mesmo, os compositores começam a pensar em
possíveis letras de música para o desfile.
Quando os compositores têm o samba
pronto, gravam a música e produzem um videoclipe para divulgação. As plataformas digitais se tornaram uma aliada da torcida
por um determinado samba. O clipe que
tem mais visualizações, por exemplo, serve de termômetro para saber se o samba
caiu no gosto do povo. Essa primeira
gravação não é oficial, portanto, não é interpretada pelo cantor da escola. De acordo com o intérprete Paulinho Mocidade, o cantor participa dos ensaios, mas não da produção dos sambas ele afirma,
porém, que o cantor tem papel fundamental na escolha do samba enredo.
“O cantor, que tem
uma responsabilidade muito grande, geralmente ele está ali acompanhando os
ensaios. ele recebe os cds de praticamente todas as parcerias. Ali ele vai
tendo gosto pelo samba um, dois, três, em comum acordo com a diretoria. E
geralmente, não são todas as escolas, mas, a maioria chama o intérprete e
pergunta: qual é o samba que você se identifica mais? Que você vai cantar com
alma, com vontade, com pegada, com tesão, com tudo que tem direito? E, as vezes, coincide daquele samba ser o que
a direção quer, que o carnavalesco também quer”.
Depois da etapa de
disputas na quadra, a escolha é feita pelos diretores das escolas. Em alguns
casos, a votação é mais aberta e conta com participação de mais de cinqüenta
pessoas, entre elas, os integrantes da velha guarda, chefes de alas e
componentes mais antigos. Por se tratar
de um processo longo e, em muitos casos, desgastante para os compositores, algumas
escolas preferem aderir a outro processo de criação: o de samba enredo por
encomenda.
Isso acontece quando as escolas selecionam um grupo de
compositores renomados no mundo do samba e pedem uma música com determinado
enredo. Dessa forma, não há a disputa em quadra. O jornalista Eugênio Leal, que
durante dezessete anos transmitiu o carnaval pela Rádio Tupi, e compôs
sambas vencedores para a Escola São Clemente, comenta que essa foi à forma que
as escolas encontraram para evitar os grandes gastos resultantes das disputas.
“Há algumas escolas
que, ultimamente, tem preferido encomendar o samba. Chegar para um grupo de
compositores já mais famosos e pedir que façam um samba sem que haja disputa na
quadra, porque a disputa, que já foi muito mais lucrativa para as escolas,
porque os torcedores levavam muita torcida, cada vez eles levam menos torcida e
aí passam a abrir a quadra para pouca gente. E, com pouca gente, é prejuízo
porque tem todo um custo de abrir a quadra”.
A opção de encomendar
um samba-enredo garantiu o segundo lugar para a escola Paraíso do Tuiti em dois
mil e dezoito. A escola apresentou o
enredo “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão”, de Moacyr Luz, Cláudio
Russo, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal. O
samba ganhou a simpatia do público com um forte refrão e um desfile que
criticou as injustiças sociais no brasil. A grande polêmica
ficou por conta de um homem fantasiado de “vampiro do neoliberalismo”, que
vinha no último carro, interpretado por muitos como o atual presidente Michel Temer.
![]() |
| Vampiro do Neoliberalismo - Foto Carnaval Interativo |
O Jornalismo no Carnaval
Existe a impressão de que os jornalistas trabalham apenas na
semana da festa. Os da Rede Globo, emissora oficial de transmissão dos
desfiles, talvez sim. Mas tem uma parte da imprensa que além de gostar muito
do tema também cobre carnaval o ano todo. Sites especializados, como, Carnavalesco, Sambarazzo, SRZD, assessoria de
imprensa das Escolas, profissionais de tecnologia, estão abrindo novos espaços dentro
desse cenário. O jornalista João Oliveira, que participa de cobertura de
carnaval desde 2014, conta um pouco sobre seu trabalho no vídeo abaixo.

Muito boa sua reportagem!
ResponderExcluirQue legal Dani, valeu pelas informações
ResponderExcluir