quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Coisas que só o Carnaval resolve

Certas separações, desalentos, brigas torrenciais, só o Carnaval pra resolver. Deixo pra vocês a imagem de Bezerra da Silva, com uma das melhores frases pra enfrentar esses tempos difíceis. E viva o Carnaval e o Samba.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Samba-Enredo, historia, representatividade, arte e luta.

Está aberta a temporada de disputas e escolha dos sambas enredo para o carnaval de dois mil e dezenove. Onze das quatorze escolas do grupo especial do Rio pretendem definir a música tema de seus desfiles até outubro. Mas, como a escolha de um samba enredo se tornou algo tão importante para a apresentação das escolas cariocas?  A história conta que o primeiro desfile aconteceu na virada da década de trinta, na Praça Onze.

Em fevereiro de mil novecentos e trinta e dois, vinte e três agremiações disputaram a competição, que teve a Mangueira como vencedora.  Porém, naquela época, não havia um enredo para direcionar o desfile. As escolas cantavam desde sambas já consagrados às letras improvisadas, que não necessariamente combinavam com as fantasias e alegorias.  

No ano seguinte, em mil novecentos e trinta e três, organizadores da festa buscaram o apoio da prefeitura. O então prefeito Pedro Ernesto incentiva a ideia no intuito de aproximar o povo de seu governo, mas exige a criação de regras e de uma competição entre as escolas  já que a prefeitura passa a oferecer um valor em dinheiro para os vencedores. A partir dai o desfile de escolas de samba entra para o calendário oficial.  A professora de Cultura Brasileira, da Puc-Rio,  Luisa Chaves,  explica como foi esse momento.

“Quando entra no calendário oficial, em trinta e três, você começa a ter a obrigatoriedade de ter um samba enredo e essa obrigatoriedade de ter um samba enredo,  vai organizar o samba, inclusive como um gênero musical”.

Como os desfiles foram absorvidos pela ordem do trabalho, os sambistas passaram a ser profissionais da música.  Nesse momento, acontece a separação entre o samba em si e o samba enredo.  Este se torna um gênero épico, moldado para embalar o espetáculo visual e coreográfico dos desfiles das escolas.  

Um grande marco da história do samba enredo foi o desfile da Portela, em mil novecentos e trinta e nove, que apresentou o enredo, fantasias e samba com a mesma narrativa.  Com “teste ao samba”, de Paulo da Portela, a escola deu início ao que seria o novo padrão de desfile. A obrigatoriedade do samba enredo também trouxe outra característica importante: a de contar, em forma de música, a história nacional.  Os enredos eram os livros didáticos de toda uma população que não tinha acesso ao estudo. No início,  eles passavam a visão de uma história oficial,  chamada por muitos pesquisadores de “história chapa branca”.  As escolas apresentavam enredos sobre a princesa Isabel, Duque de Caxias,  e sobre grandes nomes da ciência e da literatura brasileira. Apesar de maioria nas escolas de samba, a história do povo negro não ganhava destaque.  Em mil novecentos e sessenta, isso mudou com o enredo “Quilombo dos Palmares” ou “Zambi dos Palmares”, de Anescarzinho e Noel rosa.  Apresentado pelo Salgueiro, a temática afro-brasileira aparecia como tema principal nos desfiles pela primeira vez.


Em mil novecentos e sessenta e cinco, no quarto centenário do Rio, a Império Serrano desfilou com o que seria o primeiro samba enredo assinado por uma mulher em uma grande escola. O samba “Cinco bailes da história do Rio”, de Dona Yvone Lara e Sillas de Oliveira, não venceu a competição naquele ano,  mas marcou a história do samba e abriu espaço para outras mulheres compositoras.


Em mil novecentos e sessenta e seis, a Mangueira desfilou com o samba “Exaltação à Villa Lobos”, considerado um dos mais bonitos da história do carnaval.  O tema, que homenageava Heitor Villa-Lobos, fazia o encontro entre a música popular,  o samba enredo e os carnavais das escolas de samba.
 

Três anos depois, em mil novecentos e sessenta e nove, no carnaval posterior ao ato institucional número cinco, o AI-5,  a Império Serrano apresentou o samba enredo “Heróis da liberdade”,  de autoria de Sillas de Oliveira.  O samba tinha um forte sentido político e precisou mudar uma parte da letra de sua música, com a substituição da palavra “revolução” para “evolução”.


Outro momento importante para a história do samba enredo no Rio aconteceu no desfile da Unidos de Vila Isabel, em mil novecentos e setenta e dois, com a música “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, de Martinho da Vila.  O samba narrava à guerra de expulsão dos holandeses no nordeste brasileiro e exaltava a cultura pernambucana.  A letra apresentou um país que aprendia sobre a liberdade em um contexto marcado pelos anos de chumbo do regime militar.


Em mil novecentos e oitenta e oito, no centenário da abolição da escravatura, a Mangueira desfilou com o samba enredo “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?”, de Hélio Turco, Jurandir e Alvim.  O samba questionava a abolição e a existência de uma liberdade para a população negra.  Dessa forma, a escola mostrou a função do samba enredo não só como uma obra de arte, mas como um documento social.


Criação, escolha e disputa

Para além da arte e da história por trás de um samba enredo, existe um universo mais burocrático na escolha da música.  Primeiro, o carnavalesco de cada escola escreve uma sinopse para o desfile.  A partir dai, é feita uma reunião com todos os compositores da escola, onde o carnavalesco exibe a ideia e, ali mesmo, os compositores começam a pensar em possíveis letras de música para o desfile.

Quando os compositores têm o samba pronto, gravam a música e produzem um videoclipe para divulgação. As plataformas digitais se tornaram uma aliada da torcida por um determinado samba.  O clipe que tem mais visualizações, por exemplo, serve de termômetro para saber se o samba caiu no gosto do povo.  Essa primeira gravação não é oficial, portanto, não é interpretada pelo cantor da escola.  De acordo com o intérprete Paulinho Mocidade,  o cantor participa dos ensaios,  mas não da produção dos sambas ele afirma, porém, que o cantor tem papel fundamental na escolha do samba enredo.

“O cantor, que tem uma responsabilidade muito grande, geralmente ele está ali acompanhando os ensaios. ele recebe os cds de praticamente todas as parcerias. Ali ele vai tendo gosto pelo samba um, dois, três, em comum acordo com a diretoria. E geralmente, não são todas as escolas, mas, a maioria chama o intérprete e pergunta: qual é o samba que você se identifica mais? Que você vai cantar com alma, com vontade, com pegada, com tesão, com tudo que tem direito?  E, as vezes, coincide daquele samba ser o que a direção quer, que o carnavalesco também quer”.

Depois da etapa de disputas na quadra, a escolha é feita pelos diretores das escolas. Em alguns casos, a votação é mais aberta e conta com participação de mais de cinqüenta pessoas, entre elas, os integrantes da velha guarda, chefes de alas e componentes mais antigos.  Por se tratar de um processo longo e, em muitos casos, desgastante para os compositores, algumas escolas preferem aderir a outro processo de criação: o de samba enredo por encomenda.  

Isso acontece quando as escolas selecionam um grupo de compositores renomados no mundo do samba e pedem uma música com determinado enredo. Dessa forma, não há a disputa em quadra. O jornalista Eugênio Leal, que durante dezessete anos transmitiu o carnaval pela Rádio Tupi, e compôs sambas vencedores para a Escola São Clemente, comenta que essa foi à forma que as escolas encontraram para evitar os grandes gastos resultantes das disputas.

“Há algumas escolas que, ultimamente, tem preferido encomendar o samba. Chegar para um grupo de compositores já mais famosos e pedir que façam um samba sem que haja disputa na quadra, porque a disputa, que já foi muito mais lucrativa para as escolas, porque os torcedores levavam muita torcida, cada vez eles levam menos torcida e aí passam a abrir a quadra para pouca gente. E, com pouca gente, é prejuízo porque tem todo um custo de abrir a quadra”.

A opção de encomendar um samba-enredo garantiu o segundo lugar para a escola Paraíso do Tuiti em dois mil e dezoito.  A escola apresentou o enredo “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão”, de Moacyr Luz, Cláudio Russo, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal.  O samba ganhou a simpatia do público com um forte refrão e um desfile que criticou as injustiças sociais no brasil. A grande polêmica ficou por conta de um homem fantasiado de “vampiro do neoliberalismo”, que vinha no último carro, interpretado por muitos como o atual presidente Michel Temer.


Resultado de imagem para fotos do vampiro de neoliberalismo paraiso do tuiuti
Vampiro do Neoliberalismo - Foto Carnaval Interativo

O Jornalismo no Carnaval

Existe a impressão de que os jornalistas trabalham apenas na semana da festa. Os da Rede Globo, emissora oficial de transmissão dos desfiles, talvez sim. Mas tem uma parte da imprensa que além de gostar muito do tema também cobre carnaval o ano todo. Sites especializados, como, Carnavalesco, Sambarazzo, SRZD, assessoria de imprensa das Escolas, profissionais de tecnologia, estão abrindo novos espaços dentro desse cenário. O jornalista João Oliveira, que participa de cobertura de carnaval desde 2014, conta um pouco sobre seu trabalho no vídeo abaixo.




terça-feira, 25 de setembro de 2018

                                                               DISPUTA
As Escolas de Samba do Rio já vivem a expectativa da escolha do samba para o carnaval de 2019. Onze das quatorze escolas do grupo especial esperam definir seu samba até outubro.  As disputas movimentam as quadras nos fins de semana e vão criando toda a atmosfera para a comunidade  entrar no clima do enredo. Na próxima quinta-feira, 27,  vou postar aqui uma reportagem que conta a historia do samba-enredo, suas curiosidades, como é feita a escolha e o trabalho dos compositores. E você já tem um samba do coração pro ano que vem? 

                                                                   Imagem internet 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O Carnaval e o Museu Nacional

                           MEMORIAS, HOMENAGENS E CARNAVAL 


Ainda impactada pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional no incio do mês, me vem a lembrança do lindo desfile que assisti esse ano na Sapucaí. A escola de samba Imperatriz Leopoldinense homenageou o bicentenário do Museu Nacional em seu enredo "Uma noite real no Museu Nacional". Destaco pra vocês um trecho da sinopse que deu inicio a todo o trabalho de construção do desfile.

"Dom João VI, através de seu empreendedorismo na criação de importantes instituições como o Arquivo Real, a Real Biblioteca, o Erário Régio e Jardim Botânico, começou a orquestrar um projeto civilizatório de país, introduzindo novos hábitos culturais e, com isso, modificando radicalmente o perfil colonial brasileiro. O país saía do ostracismo intelectual que lhe fora atribuído quando servia apenas como uma zona de exploração e extração de riquezas, para consolidar o poder monárquico no Novo Mundo. Nesse projeto civilizatório, uma peça importante seria um museu que pudesse, com seu acervo científico e antropológico, mostrar ao mundo a potência de um império sediado na América"

O texto escrito pelo carnavalesco Cahê Rodrigues resume de modo apaixonado a criação do Museu Nacional, toda a exuberância de seu palácio, obras e a importante contribuição cientifica e social para o país. O desfile foi uma viagem no tempo e um delírio para os olhos. Dentro daquela magia que passava pela avenida jamais podíamos imaginar que poucos meses depois toda a nossa riqueza histórica viraria cinzas.

Eu me solidarizo com toda a comunidade leopoldinense que apresentou com muito respeito e beleza esse desfile. Seus integrantes, diretoria, compositores, interpretes e carnavalesco nos brindaram com uma linda homenagem, que assim como o museu também entrou pra história.

Credito foto:

Cris Gomes, Luana Rayssa e A. Pinto.

Veja as fotos do desfile aqui: 

http://www.imperatrizleopoldinense.com.br/#

quarta-feira, 14 de março de 2018

Inicio de conversa

Meu nome é Daniela Oliveira, sou estudante de jornalismo na PUC-RIO, e o tema desse blog é carnaval. O espetáculo anual que precede o inicio da quaresma muda a rotina da cidade maravilhosa, e cria em seus apreciadores um misto de alegria e ilusão. Durante uma semana vivemos a expectativa para o desfile da escola de samba do coração, o planejamento para as fantasias dos bloquinhos, a esperança em viver um amor, mesmo que for de carnaval. A rua e a passarela se tornam uma parte nós. 

Nesse espaço vamos conversar, trazer questões históricas do surgimento da festa popular, analisar o desfile e os resultados do carnaval de 2018, entrevistar especialistas, ouvir o povo, "o chão da escola" e fazer deste humilde blog uma passarela de paixão pelo Carnaval.